A sofisticação das línguas indígenas
Você provavelmente já encontrou
pelas redes sociais o famigerado #sqn, aquele jeito telegráfico de dizer que tal coisa é muito legal, “só
que não”. Agora, imagine uma língua totalmente diferente do português que deu um jeito de incorporar
um conceito parecido na própria estrutura das palavras, criando o que os linguistas apelidaram de
“sufixo frustrativo” — um #sqn que faz parte da própria história do idioma.
É exatamente assim que funciona no
kotiria, um idioma da família linguística tukano que é falado por indígenas do Alto Rio Negro, na fronteira
do Brasil com a Colômbia. Para exprimir a função “frustrativa”, o kotiria usa um sufixo com a forma -
ma. Você quer dizer que foi até um lugar sem conseguir o que queria indo até lá? Basta pegar o verbo
“ir”, que é wa’a em kotiria, e acrescentar o sufixo: wa’ama, “ir em vão”. Dá para encontrar detalhes
surpreendentes como esse em todas as mais de 150 línguas indígenas ainda faladas no território
brasileiro. Elas são apenas a ponta do iceberg do que
um dia existiu por aqui.
Calcula-se que pelo menos 80% dos
idiomas que eram falados no Brasil desapareceram de 1.500 para cá. Mesmo assim, o país continua
abrigando uma das maiores diversidades linguísticas do planeta. A propósito, esqueça aquele negócio de
“tupi-guarani”, expressão que é meio como dizer “português-espanhol”. O tupi é uma língua; o guarani
é outra — e, aliás, existem diversas formas de guarani, nem sempre inteligíveis entre si.
O único emprego correto do
substantivo composto “tupi-guarani” é o que serve para designar uma subfamília linguística com esse
nome, a qual engloba dezenas de idiomas. Entre seus membros ainda usados no cotidiano estão o
nheengatu, os vários “guaranis”, o tapirapé e o guajá. Uma subfamília, como você pode imaginar, faz
parte de uma família linguística mais ampla — nesse caso, a família tupi propriamente dita.
Existem pelo menos outras três
grandes famílias linguísticas no país, diversas outras famílias de porte mais modesto e, de quebra,
várias línguas consideradas isoladas. É mais ou menos o mesmo caso do basco, falado na Espanha e
na França — com a diferença de que o basco é um dos únicos casos desse tipo no território
europeu.
Essa comparação ajuda a entender o
tamanho da riqueza linguística brasileira. Com raríssimas exceções (fora o basco, temos também o
finlandês e o húngaro, por exemplo), todos os falares ainda utilizados hoje na Europa fazem parte de
uma única família linguística, a do indo-europeu. Pode não parecer à primeira vista, mas é praticamente
certo que o alemão, o russo, o grego, o português e o lituano descendem de um único idioma pré-
histórico, que hoje chamamos de protoindo-europeu.
Reinaldo José Lopes. Internet. <super.abril.com.br.> (com
adaptações).